Eu não saberia andar a frente dele, ou poderia mas teria de
ter a certeza de que era para andar
adiante, sem mudar o curso, e mesmo assim não saberia bem a hora de ter
chegado. Por isso me conservo atrás, e pensando nisso, meu passo acompanha com
vagar o tempo com que vou compreendendo. É um dia branco e frio porque choveu
durante a noite, e o mar trouxera para a praia as partes pequenas que não lhe
faziam falta, ossos de bicho, pedras e plantas vermelhas, e andamos sobre tudo,
sobre copos de vidro, sobre os coqueiros que pareciam deitar para beijar a espuma,
e chegamos à areia branca da costa, a tempo de sentir o sol acima da cabeça,
mesmo encoberto, e olhar a chuva que borrava a paisagem percorrida.
Meu pai não perde o passo, ele inaugura no caminho o jeito
certo de pertencer àquele lugar, e respira o sal como se cumprimentasse a um
vizinho de muito tempo. Ele, que também não saberia como andar atrás, assume
diante da areia que se estende o lugar de homem-amante, sabendo intuitivamente
como percorrê-la, como adentrá-la, e depois de muito suor no corpo, dar-lhe
algum descanso.
Eu, caminhando logo atrás, aprendia com ele tarefa de
deixar-se ir e manter-se firme. É quando me percebo parte dele, parte do mar e
da areia, parte do céu e parte de coqueiro, e sincronizamos o ritmo da
caminhada, sem falarmos nada que não seja a confirmação de tudo o que vemos,
estamos vivos, e criamos lado a lado o caminho que seguimos pela praia branca,
como se em verdade, fôssemos pingüins no Ártico.
