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domingo, 9 de outubro de 2011

Adentro - crônica de Daniel Prudente


Eu não saberia andar a frente dele, ou poderia mas teria de ter a certeza de que era  para andar adiante, sem mudar o curso, e mesmo assim não saberia bem a hora de ter chegado. Por isso me conservo atrás, e pensando nisso, meu passo acompanha com vagar o tempo com que vou compreendendo. É um dia branco e frio porque choveu durante a noite, e o mar trouxera para a praia as partes pequenas que não lhe faziam falta, ossos de bicho, pedras e plantas vermelhas, e andamos sobre tudo, sobre copos de vidro, sobre os coqueiros que pareciam deitar para beijar a espuma, e chegamos à areia branca da costa, a tempo de sentir o sol acima da cabeça, mesmo encoberto, e olhar a chuva que borrava a paisagem percorrida.


Meu pai não perde o passo, ele inaugura no caminho o jeito certo de pertencer àquele lugar, e respira o sal como se cumprimentasse a um vizinho de muito tempo. Ele, que também não saberia como andar atrás, assume diante da areia que se estende o lugar de homem-amante, sabendo intuitivamente como percorrê-la, como adentrá-la, e depois de muito suor no corpo, dar-lhe algum descanso. 
Eu, caminhando logo atrás, aprendia com ele tarefa de deixar-se ir e manter-se firme. É quando me percebo parte dele, parte do mar e da areia, parte do céu e parte de coqueiro, e sincronizamos o ritmo da caminhada, sem falarmos nada que não seja a confirmação de tudo o que vemos, estamos vivos, e criamos lado a lado o caminho que seguimos pela praia branca, como se em verdade, fôssemos pingüins no Ártico.