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Mostrando postagens com marcador Daniel Prudente. Mostrar todas as postagens
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domingo, 6 de maio de 2012

domingo, 22 de abril de 2012

Amarelo - por DANIEL PRUDENTE


Acabava o mundo e nada tornaria branco como aquela ave, um pássaro curto de penugem rala e fofa, que não terminava de pousar sobre os varais de plástico da Rua Quinze. Um pássaro assim, que mais parecia um pinto, era se muito fosse um bicho raro, dado que por essas bandas não se via passarinho assim, que são todos meio cinzas e marrons, e de longe parecem mais atarefados, sem muito tempo para se dar a brincar de varal em varal. Pois esse era branco, e mais parecia um pinto.
Fosse o que fosse, o pássaro-pinto branco não piava. 

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Azul - por DANIEL PRUDENTE

Não há outro, um azulejo, se cabe inteiro sobre a janela não tem nome de céu. É coisa azul que parece pintada com a mesma tinta-giz de igreja nordestina. É para dentro de um retângulo magro que a cor se esbranquiça e acende no quarto a tarde. Hoje eu perfumo o pescoço e deito a cabeça mole sobre as mãos. Lá fora a tarde não carece correr, grudada que está nas pencas de banana no asfalto, lá fora há muita gente e todos silenciam a parte que lhes cabe de céu.  
Eu cobrirei a cabeça de um torso branco para trazer no cocuruto o meu santo, e para lhe dizer que se acalme já, que aqui estou se por alguma feita ele precise; que eu lhe obedeço e que não vou pra longe. a tarde amadurece na minha cabeça e acende meus olhos na cor. Eu vejo Deus.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Doloso - crônica de Daniel Prudente


Você não quer Rutinha, não quer casar? Não carece. Ele imaginava Rute imaginando o que melhor poderia dizer quando tivesse que abrir aquela boca por algum motivo, e sem muita volta ele pensou que era assim mesmo que ela pensava: “não carece”, é que a vaca teimava em parecer mais inteligente, e ele se punha a imaginá-la Rute imaginando, pensava qualquer coisa e era nele, de como era forte e sério e calado, e como era bonito quando comia com o maxilar mais frouxo, a colher virada para o

domingo, 20 de novembro de 2011

Meu você - crônica de Daniel Prudente


A face mais aberta contra o dia, só, na pista que atravessava a fachada do mercado, a manhã era um mel de abelha escorrendo muito lento sobre a lente larga. Estava ali, inteira e opaca na cidade mansa, que na verdade era mais o jeito de saber estar ali que fazia os telhados e o poste desfocarem atrás dela.  Sorria pequeno dentro de uma camisa grande e masculina, mas que era sua, ou parecia ser de como estava bonita. Ela estava bonita, e nem sabia.
Despediu-se da irmã levando a câmera na bolsa, tchau Rita, e seguiu pela calçada do mercado, perguntando a si mesma se a irmã teria visto o que mais importava nela. E era a cidade vazia.

domingo, 13 de novembro de 2011

Comer com a mão - Daniel Prudente


Despejei a farinha por cima da sopa amarela de dendê, e tinha tempo que não fazia isso, de empurrar os dedos para o fundo do prato e começar a cimentar o peixe; de em pouco, o arroz se amassava com a farinha e acabava por despedaçar as postas de Vermelho, cobrindo o couro dos dedos com uma massa argilosa e suculenta.  Comer com a mão tinha-me sido ensinado por meu pai em segredo, no tempo em que meu irmão e eu enchíamos a pia dos fundos para afogar os brinquedos, e minha mãe não via. 

domingo, 23 de outubro de 2011

Vamos falar de Tereza - crônica de Daniel Prudente


Qualquer coisa que me faltasse na boca era coisa certa, coisa de bicho. Então ficava só falando, virando a coisa pra baixo, empurrando o peso pra não se mexer. 

Ia dizer que a tosse do mundo me doía, e também que eu dirigia um carro grande e muito veloz pela rua do comércio e, caindo por cima da palavra, eu disse assim: choveu mais cedo. 

Tereza me olhou com tanto amor que eu pensei que fosse Jesus.
Eu me canso Tereza, de ser gente, e isso eu também não disse. Fiquei olhando ela. Olhando ela de novo, e de novo. Que eu me sentia bem. Tereza era mulher pra que dissesse pouco.

domingo, 9 de outubro de 2011

Adentro - crônica de Daniel Prudente


Eu não saberia andar a frente dele, ou poderia mas teria de ter a certeza de que era  para andar adiante, sem mudar o curso, e mesmo assim não saberia bem a hora de ter chegado. Por isso me conservo atrás, e pensando nisso, meu passo acompanha com vagar o tempo com que vou compreendendo. É um dia branco e frio porque choveu durante a noite, e o mar trouxera para a praia as partes pequenas que não lhe faziam falta, ossos de bicho, pedras e plantas vermelhas, e andamos sobre tudo, sobre copos de vidro, sobre os coqueiros que pareciam deitar para beijar a espuma, e chegamos à areia branca da costa, a tempo de sentir o sol acima da cabeça, mesmo encoberto, e olhar a chuva que borrava a paisagem percorrida.

domingo, 2 de outubro de 2011

Estive aqui - crônica de Daniel Prudente


A tesoura estava largada dentro da xícara, e não pude pensar quando foi isso, que na cozinha eu usasse a tesoura e depois, sem atenção, depositasse a tesoura ali, na pia, dentro da xícara, como um porta-lápis. O metal enferrujado criava no contato com a porcelana um ruído seco e agressivo na minha cabeça, embora a tesoura estivesse totalmente imóvel, com as pontas fechadas num ponto da circunferência de dentro do copo, de modo que todo o corpo do objeto se estirava reto numa transversal, como se debruçasse para fora da xícara; como se fosse para espiar a pia. Era a estranheza da cena que simulava o ruído.