A face mais aberta contra o dia,
só, na pista que atravessava a fachada do mercado, a manhã era um mel de abelha
escorrendo muito lento sobre a lente larga. Estava ali, inteira e opaca na
cidade mansa, que na verdade era mais o jeito de saber estar ali que fazia os
telhados e o poste desfocarem atrás dela. Sorria pequeno dentro de uma camisa grande e
masculina, mas que era sua, ou parecia ser de como estava bonita. Ela estava
bonita, e nem sabia.
Despediu-se da irmã levando a
câmera na bolsa, tchau Rita, e seguiu pela calçada do mercado, perguntando a si
mesma se a irmã teria visto o que mais importava nela. E era a cidade vazia.
De em pouco os portões sem graxa
rasgavam as lojas do comércio, e ela tentava lembrar cada palavra que escrevera
na carta, mas elas saltavam desconexas, uma acima da outra, que a tentativa de
imaginar a reação do namorado quando as recebesse era como tapar com a mão uma
pipoqueira.
Quando chegou à casa de foto,
explicou ao rapaz que ela queria a ultima pose num tamanho maior, e que por
favor fizesse duas.
Voltou para casa espantada de
como fosse tão cedo, e de como lhe parecia muito que a irmã lhe tivesse tirado
um retrato essa manhã e que depois tivesse levado a câmera para revelar. O
rapaz lhe disse que poderia vir buscar as fotos no dia seguinte, e ela
obedeceu.
Queria que o Rio de Janeiro fosse
mais perto, ou que Jorge não tivesse viajado para buscar trabalho, e que aquilo
tudo não fosse repetição dessas histórias de menina apaixonada. Era só um
pouquinho mulher e sentia saudade, não era isso? Bateu o cadeado de casa ainda
encabulada, pensando na cara de Jorge quando visse a foto, e de como fora
ousada lhe chamando de “meu você”.

