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domingo, 20 de novembro de 2011

Meu você - crônica de Daniel Prudente


A face mais aberta contra o dia, só, na pista que atravessava a fachada do mercado, a manhã era um mel de abelha escorrendo muito lento sobre a lente larga. Estava ali, inteira e opaca na cidade mansa, que na verdade era mais o jeito de saber estar ali que fazia os telhados e o poste desfocarem atrás dela.  Sorria pequeno dentro de uma camisa grande e masculina, mas que era sua, ou parecia ser de como estava bonita. Ela estava bonita, e nem sabia.
Despediu-se da irmã levando a câmera na bolsa, tchau Rita, e seguiu pela calçada do mercado, perguntando a si mesma se a irmã teria visto o que mais importava nela. E era a cidade vazia.
De em pouco os portões sem graxa rasgavam as lojas do comércio, e ela tentava lembrar cada palavra que escrevera na carta, mas elas saltavam desconexas, uma acima da outra, que a tentativa de imaginar a reação do namorado quando as recebesse era como tapar com a mão uma pipoqueira.    
Quando chegou à casa de foto, explicou ao rapaz que ela queria a ultima pose num tamanho maior, e que por favor fizesse duas.
Voltou para casa espantada de como fosse tão cedo, e de como lhe parecia muito que a irmã lhe tivesse tirado um retrato essa manhã e que depois tivesse levado a câmera para revelar. O rapaz lhe disse que poderia vir buscar as fotos no dia seguinte, e ela obedeceu.
Queria que o Rio de Janeiro fosse mais perto, ou que Jorge não tivesse viajado para buscar trabalho, e que aquilo tudo não fosse repetição dessas histórias de menina apaixonada. Era só um pouquinho mulher e sentia saudade, não era isso? Bateu o cadeado de casa ainda encabulada, pensando na cara de Jorge quando visse a foto, e de como fora ousada lhe chamando de “meu você”.