Acabava
o mundo e nada tornaria branco como aquela ave, um pássaro curto de penugem
rala e fofa, que não terminava de pousar sobre os varais de plástico da Rua Quinze.
Um pássaro assim, que mais parecia um pinto, era se muito fosse um bicho raro,
dado que por essas bandas não se via passarinho assim, que são todos meio cinzas
e marrons, e de longe parecem mais atarefados, sem muito tempo para se dar a
brincar de varal em varal. Pois esse era branco, e mais parecia um pinto.
Fosse
o que fosse, o pássaro-pinto branco não piava.
Caía por baixo dos varais e ressurgia por cima na outra ponta, como se
os costurasse numa espécie gigante de ninho. Estava por isso quando por cima
das telhas molhadas, baixou devagar sobre os tijolos, para a mureta que
encerrava o beco, um gato grande e amarelo que perdeu logo a paciência e engoliu
o pássaro. Nunca tinha visto aquilo, um pássaro branco mais parecendo um pinto
que girasse no meio de dois muros, tudo errado, mas ele, o gato, havia
aparecido. Orgulhoso de ter ajeitado um pouco o mundo, o gato grande e amarelo subiu
por outra murada e descansou. Mas cochilou pouco. Tornou a caminhar sobre o
lajedo, fazia calor e o cheiro do rio lhe inebriava, andava torto, engolira
muito rápido o pássaro-pinto e precisava terminar o descanso.
Estirou
o couro na sombra de um pneu junto a um muro de reboco. E ali, a cabeça
repousada no chão levantou-se dura. O gato amarelo podia ouvir de dentro das
entranhas, como se viesse de longe, o pássaro-pinto piando. O gato saltou por
cima do pneu, arranhou o cimento e as tábuas e despencou para a outra rua,
correu direto e reto para um muro e aterrissou na beirada de um telhado com uma
classe digna de sua raça, e tornou a encolher-se para escutar. O pássaro-pinto
piava mesmo. Diacho, ia fazer o que agora? Desceu encolhido a murada, se o
desavisado furasse a barriga por dentro tava lascado, e procurava uma solução
que fosse rápida e certa, que o bicho piando dentro dele era pior que água. O
cheiro do rio lhe ensinou a direção, e o gato amarelo foi dar nas margens do
rio caudaloso. Aquele rio era rio sim, mas também era esgoto misturado. Se
bebesse afogava o bicho, que se não morresse pelo menos ficava doentinho. O
gato estirou-se para a beira e sorveu uns bons goles que terminou de encher-lhe
a pança. Deu meia volta e tornou para a rua deserta por trás do mercado,
satisfeito com a própria inteligência, mas se não era um eco na sua cabeça, o
pássaro-pinto branco-sujo tava ali, piando, só que piava mais baixo, perto dos
rins. Ia fazer o quê? Cortar a barriga? Cagar o bicho vivo? Olhou para o alto e
pensou em comer outro passarinho, um marronzinho dessa vez, que ensinasse o
outro a morrer, ou a voar para longe da barriga, mas o céu não dava notícia de
pássaros, e assim mesmo, sabia voar desde quando? Depois, cansado, debaixo do
sol frio, ocorreu-lhe ao gato que aquilo era um castigo, e quis pedir perdão.
Não devia ter comido um passarinho branco, um passarinho raro, que mais parecia
um pinto. Podia ser que não fosse desse mundo, que o pássaro-pinto estivesse
ali para testá-lo, que o pássaro-pinto fosse Deus. Eu comi Deus, pensou o gato.
E já não sabia se era uma pergunta ou se afirmara, por trás de bigodes
finíssimos curvados para cima, o gato parecia sorrir.
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Daniel Prudente, é escritor, ator, artista plástica e itabunense. Observador atento do cotidiano é figura costumeira aos domingos no EuVejorte.blogspot.com
http://ultradownloads.com.br/papel-de-parede/Passaro-Amarelo/

