Este artigo tem por
finalidade responder a dupla indagação: por que (não) ler Jorge Amado?
Muitos escritores, intelectuais, personalidades e pesquisadores de
literatura, dentre outros leitores, declararam a importância da obra
jorgeamadiana e a relação entre essa produção literária e formação de
leitores do Brasil, em especial.
O
poeta e cronista Carlos Drummond de Andrade assim saudou em versos
nosso amado escritor: “coisa do gosto nacional /sem fingimento de
pecado: a flor do sexo em Dona Flor / o ardor-canela em Gabriela / o
amor baiano em Jorge, amado / de brasileiro em geral” As personagem de
Jorge Amado fazem parte do imaginário nacional tamanha a expressividade
dele e a interação obra e leitores.
Para
o encantado acadêmico Moacyr Scliar, no Brasil chega-se à literatura
através dos livros de Jorge Amado. Diz textualmente: “Por que (ler)
Jorge Amado? Pelo exótico, pelo irônico, pelo sensual, pelo fantástico;
pelo prazer contagiante da história bem narrada. Razões às quais
acrescento mais uma, pessoal: busco em Jorge Amado o jovem que varava
madrugadas devorando seus livros, emocionado por vezes até às lágrimas.
Busco em Jorge Amado o jovem que – graças a seus livros – acreditou num
mundo melhor, mais justo e mais humano. Busco em Jorge Amado um
reencontro comigo mesmo.”
De
acordo com o poeta e ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional
Affonso Romano de Sant’Anna: “A dívida da cultura brasileira tem para
com Jorge Amado aqui dentro e lá fora se avoluma e cresce mais que nossa
famosa dívida externa. (...) Ele sozinho fez mais por nossa cultura que
todos os departamentos de promoção cultural do governo em toda a
história da República.” A obra de Jorge Amado projetou o País de forma
singular, promovendo, assim, o turismo e a cultura baiana.
Jorge de Souza Araújo,
crítico literário e autor de “Floração de Imaginário: o romance baiano
no século 20”, nos brindou com esse título apresentando-nos um painel
sintético-crítico da obra de Jorge Amado. Destacamos nele: “Ao Jorge
Amado contrário à erudição de gabinete se concentra, apura e contrapõe o
romancista pulsando de emoção e força dionisíacas.” Prossegue: “A
mestiçagem, para Jorge Amado, é a resposta identitária à formação
cultural e étnica da Bahia, especialmente Salvador.” Trata-se com bem
atestou o crítico de um romancista popular e comprometido com a
identidade de seu povo, tornando uma coisa só: Jorge Amado da Bahia e a
Bahia de Jorge Amado.
Segundo a intelectual,
escritora e pesquisadora do patrimônio cultural de Ilhéus, Maria Luiza
Heine, “Somente na idade adulta tive oportunidade de ter contato com a
obra de Jorge Amado pela primeira vez. Foi uma surpresa muito grande e
muito agradável. Encontrei um filósofo popular, um poeta, um homem
extremamente sensível que foi capaz de retratar uma época muito marcante
de uma região com uma felicidade incrível, mas que nem todos foram
capazes de compreender.”
Ainda
de acordo com Heine, em “Jorge Amado e os coronéis do cacau”: “A reação
da população de Ilhéus à obra de Jorge Amado foi muito interessante. No
início eles odiavam a situação. O escritor havia “maculado” a honra da
nação grapiúna. Quando o sucesso tomou conta e, segundo o próprio autor,
a partir da novela realizada pela televisão das obras Gabriela e Terras
do Sem Fim, para cada personagem sobravam vários modelos. Todos queriam
ser Mundinho Falcão, Ramiro Bastos ou Coronel Horácio.”(...) “A
genialidade de um Jorge Amado é que a cabeça dele é capaz de criar uma
estória baseada na história, utilizando sua imaginação e vivência.”
(...) Se um dia o cacau for apenas lenda e história, certamente essas
serão muito mais ricas por causa desse fruto nascido nos cacauais de
Ferradas.”
Em “Romântico, sedutor e
anarquista – como e por que ler Jorge Amado hoje”, a ensaísta e a atual
presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Ana Maria Machado
discute com perspicácia e consistência argumentativa o porquê da
resistência de alguns críticos e professores universitários do País em
relação ao romancista “best-seller”. Essa publicação de Ana Maria é
fruto do curso ministrado na Oxford(Inglaterra), em 2005, como parte do
acordo firmado entre essa instituição e a ABL.
Segundo a ensaísta e autora
do “Literatura: leitura e leitores”, Marisa Lajolo, o escritor baiano
foi responsável pela apresentação da nossa literatura aos diversos
leitores. “Ao ler uma obra de Jorge Amado, parece que estamos sentados
ao lado dele no cais.” Lajolo afirma que Jorge Amado merecia o Prêmio
Nobel de Literatura e que parte da crítica ainda não compreendeu as
qualidades literárias do autor baiano.
A
documentarista de “Um olhar sobre Jorge Amado” e “Jorge Amado por Zélia
Gattai”, Renata Farias Smith Lima nos afirma que o ilustre cidadão
ilheense é considerado um “cidadão do mundo, ícone cultural. (...) Jorge
Amado abriu uma janela local para o global. Um contador de estórias por
excelência.” Renata destaca que no segundo documentário, Zélia
fala de amor, memória, cotidiano, carreira e turismo; um vídeo ideal
para quem se interessa em conhecer mais sobre o homem/escritor que
representa o principal ícone local.”
Poderíamos
elencar mais testemunhos, porém acredito que os arrolados são bastante
expressivos e elucidativos para registrar a relevância do escritor
grapiúna e as qualidades da obras jorgeamadiana, que neste momento é
mais do que celebrada, inclusive, por iniciativa conjunta entre o Museu
da Língua Portuguesa, Fundação Casa Jorge Amado e família amado; que nos
apresenta um acervo intitulado “Jorge, Amado e Universal: Um olhar inusitado sobre o homem e a obra”, composta por fotografias, objetos, folhetos de cordel, filmes, entre outros itens, sendo que parte do conteúdo nunca foi vista pelo público.
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Alderacy Pereira da Silva Júnior é professor e jornalista. Possui experiência como editor de revista e jornal, já lecionou língua portuguesa e cultura brasileira para estrangeiros. Foi coordenador do Núcleo de Práticas Leitoras do PROLER, Comitê de Viçosa, e Delegado Cultural de Mariana, Minas Gerais (2009). Na UESC, ministrou oficinas literárias Brincar de Ler e Nos bastidores da literatura infantil. Autor e professor da Oficina Jorge Amado fora da estante. E-mail: alderacy1@gmail.com


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