Eu
não te condeno pelo que tu és, senhor. Toda vez que dobro a esquina e te
observo já não sei o que dizer, tamanho incômodo que essa indiferença forçada
me dá. Sei que tu me olhas quando fico parado ali.
Sei que alguma coisa tem a me dizer, mas me recuso a ouvir, ser humano tolo e intolerante que sou. Esqueço, não te dou a devida atenção, espero sempre
Sei que alguma coisa tem a me dizer, mas me recuso a ouvir, ser humano tolo e intolerante que sou. Esqueço, não te dou a devida atenção, espero sempre
que
"pereça ali, e um dia finalmente lhe tirem desse
lugar que você me ocupa". Sim, você me ocupa um lugar. Você toma meu espaço, você me deixa em pé esperando um maldito ônibus. Você não tem o direito de reclamar, pária. Eu tenho.
lugar que você me ocupa". Sim, você me ocupa um lugar. Você toma meu espaço, você me deixa em pé esperando um maldito ônibus. Você não tem o direito de reclamar, pária. Eu tenho.
Sou cidadão, até onde minha identidade me garante. E reclamo de pessoas assim, que pensam como eu mesmo penso. Vergonhoso, lastimável, desnecessário... Quantas histórias se escondem por trás dessa capa suja que vestes? O que me mata mais é a certeza de que não te dou nem a mínima chance de se dirigir a mim, todos os dias de manhã e me desejar um bom dia. Afinal de contas, o que te faz menos humano e humanizado do que eu, pária?
Eu devo ser tão sujo e remendado por dentro quanto tu és por fora e nem sei, pária. Meu espírito corre o risco de correr à margem da sociedade, ser gauchena vida, marginal. Tenho medo de, dentro de mim, emergir um ladrão de almas e sensações, um bandido, salafrário, escroto, descompromissado com a integridade alheia. Meu coração me surra todos os dias por não ter a decência de dirigir-lhe a palavra.
Um dia te encararei como igual.
Talvez um dia chegue a ter liberdade que tu tens, pária. Maldito homem, se quiseres ir e vir bem podes. Não tem a formalidade de uma casa ou a loucura de contas a pagar, não tem cama confortável, mas tem
liberdade. Liberdade dessa raça louca que domina o mundo, dessa corja pejada de falso moralismo, da vã justiça, da consciência social. Com o preconceito enfiado no cu até o incômodo bater a porta do mais banal
dos homens. Eu me igualo à eles, pária. Ser à margem sou eu. Queria ter a coragem hercúlea que tens de ser quem tu és pelo simples prazer de respirar a mais completa liberdade.
Por enquanto tu continuas aí, eu continuarei aqui. Um dia nossos caminhos farão mais sentido, e talvez um dia eu mereça que escutes o meu bom dia e eu tuas palavras.
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Pedro
Paulo é estudante, escritor, pensador nas horas vagas e poeta quando
a inspiração vem. Há 14 anos vive na Bahia, terra que o inspira e onde nasceram
seus primeiros versos. Atualmente escreve no Dominggo Literário aqui no
EuVejoArte.blogspot.com e seu blog pessoal é
fonte da imagem: http://amandopalavras.blogspot.com.br/2011_06_01_archive.html


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