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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Só nessa semana é que eu vim saber sobre a tal Luíza que foi pro Canadá - RODRIGO MELO


Só nessa semana é que eu vim saber sobre a tal Luíza que foi pro Canadá. Soube depois de todo mundo, mas não me importei tanto. Segundo o meu camarada José Carlos Júnior, às vezes também chamado de Juninho, mas não por mim: “O ser humano anda cada dia mais besta”.
 Mas vai ver que não achamos graça na brincadeira porque simplesmente descobrimos depois que a onda passou. Nunca se sabe; o subconsciente é uma ilha de edição.
 Um amigo me ligou:
     - E a Luiza, soube que está voltando?
     - Que Luiza?
     - A Luiza que foi pro Canadá!
     - Aquela que namorou Neto?
     - Rapaz, você tá viajando... Não conhece essa história não?
 É claro que eu não sabia, mas ele me contou. Fiquei, como diria o Juninho, com cara de abestalhado ante o carnaval em cima do assunto. Mas, pensando melhor, deve ter sido algo realmente interessantíssimo, já que todo mundo se amarrou. Eu é que cismo.
 Mudando de assunto, fui ao lançamento da Mondrongo, excelente nome por sinal. Lançamentos, na verdade - ambiente cheio, alegre, pãezinhos de queijo e vinho pra distrair. Achei os quatro livros muito bons, sem exceção. A turma não está para perder tempo, tampouco ficar em cima do muro, e isso é combustível para todos nós. De tirar o chapéu. Lançar livro, afinal de contas, é um negócio complicado para carilho.
 Mudando, outra vez, de assunto, mas continuando no mesmo universo, acabei de reler OVELHAS NEGRAS, do Caio Fernando Abreu. Tem gente que não gosta e fala mal. Geralmente os ditos puristas. Acho que por não conseguirem furar o bloqueio da linguagem não conseguem também ver a força que há nos textos daquele sujeito – poesia, musicalidade e um lirismo meio louco e inconseqüente que teima em ir na contra-mão. Uma literatura feita de ousadia, talento e coragem.
 Por falar no Caio, lembro que a Clarice escreveu um prefácio para um livro dele, ela que não era chegada a prefácios. Era, sim, uma Medusa louca e cheia de amargor. Incompreensível. Sempre tive um medo danado daquele olhar dela. Há escritores que eu já me imaginei conhecendo. Uma dessas coisas malucas que a gente pensa: sentar com um desses imortais e conversar distraidamente sobre a literatura ou sobre como é fácil ou difícil viver, beber um drink, ouvir conselhos. Com a Clarice eu não conseguiria isso. Teria medo dela me olhar e eu virar estátua.
  A Clarice que me perdoe, mas sempre fui meio medroso mesmo.
 Medo de roda gigante e boléia de caminhão, medo da polícia, da milícia e do ladrão. Mas, ao mesmo tempo, um bocado valente também. Tão valente que uma hora desvendo ou venço tudo: o universo, a vida, a Clarice, a Luiza... ou simplesmente as deixo pra lá. Vale que certas coisas a gente vence, outras a gente esquece e outras a gente só digere depois, quando é pra digerir. Maturidade ou outro nome qualquer.
 Penso que este dia talvez esteja perto. Ando mais apressado ultimamente.
 Foi o Drummond quem disse:
  “Chega uma hora em que a vida é uma ordem.
    A vida apenas, sem mistificações”.

Sem querer soar pretensioso, acho que o Drummond seria mais fácil de encarar.











Rodrigo Melo é filho de Eduardo e Márcia, irmão de Juliano e Murilo, casado com Thalita, pai de Amaralina, uma menina linda, e é também brodão de Diná e Brooks, que joga umas danças por aí. Além disso, escreve uma coluna, blablablá, no diário de ilhéus, quase todos os sábados.