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terça-feira, 3 de julho de 2012

A concepção de um espetáculo de teatro e a contrução da personagem


Silvestre Guedes na peça "A Chegada dos Portugueses no Brasil"
A concepção de um espetáculo carece do seguimento de um caráter técnico muito intenso, tendo início com os estudos e a mesa de leitura, passando pelos ensaios, oficinas e laboratórios, até chegar o momento crucial, o de mostrar o resultado ao público. A preparação para concepção de qualquer espetáculo tem um tempo e ritmo distinto, mesmo que dois grupos de teatro tenham a tarefa de montar o mesmo texto, serão espetáculos completamente divergentes um do outro, até mesmo o período de ensaios será divergente, enquanto um grupo pode conceber o espetáculo em três meses, o outro pode precisar de um ano. O texto pode ser dito de vários jeitos e as experiências do grupo - as vivências, bagagens e direcionamentos - pode definir se a peça será sublime ou amadora, evidenciando que o termo amador é extremamente questionável. Um espetáculo pode não agradar na estreia, entretanto pode melhorar incrivelmente durante uma temporada, conforme ele vai amadurecendo e ganhando outras dimensões, como também pode acontecer o contrário, por isso é recomendável assisti um espetáculo na estreia e em fim de temporada, ressaltando que cada apresentação é única.


Alunos do projeto Forteatro na peça "A Chegada dos Portugueses no Brasil"
A construção da personagem é algo muito pessoal e requer alguns conhecimentos básicos para o ator não cair na atuação mecânica, o conhecimento do sistema stanislavskiano na teoria e na prática torna-se fundamental para qualquer iniciante. “Constatin Stanislavski do Teatro de Arte de Moscou, não quis guardar para si os ensinamentos práticos que colheu ao longo de mais de quarenta anos de uma vida dedicada ao teatro, inicialmente como ator e, mais tarde como diretor. Inovador e dinamizador, Stanislavski é um dos nomes mais importantes do teatro contemporâneo, reconhecido pelos seus métodos de trabalho, que deram dimensão psicológica e estética à arte cênica. Exegeta, não menos do que artista e artesão, o grande mestre russo não pretendeu inventar teorias, descobrir um principio científico ou encontrar a chave da pedra filosofal. Usando bom senso e conhecimento profundo das capacidades humanas, o que Stanislavski desejou realizar e conseguiu foi o arejamento do teatro moderno, despojando-o de convenções e artificialismos e transformando-o em poderosa arma de comunicação entre as intenções do autor e a sensibilidade do público, graças a uma melhor preparação do ator.” Trecho da crítica de Enio Silveira no Livro “A Preparação do Ator” de Constatin Stanislavski.

O encontro com o seu interior é a uma das missões árduas do ator que irá permitir-lhe ser descontruído, para isso o ator será quebrado em vários pedacinhos, metaforicamente, comerá o pão que o diabo amassou, eliminando gestos e costumes repetitivos, usados em clichês; ele terá que abrir mão de conceitos materialistas e individualistas. Somente quando ele nascer de novo, que ele aprenderá a andar e falar como a personagem. O laboratório cumpre a tarefa de trazer memórias vivas para o ator usar em cena, possibilitando-o ter contato com a realidade que ele quer passar para o público - “O corpo não tem memória, ele é memória” como propõe Jerzy Grotowski em seu teatro laboratório - Somente assim o drama alcançará o verdadeiro e espontâneo sentimentalismo. Uma frase dita não precisa vim precedida de um movimento; se ele não se faz necessário, não há o porquê de usar as mãos ou os pés. Um momento de fúria no texto não precisa ser uma explosão de testosterona, o texto pode ser dito friamente, na calmaria, talvez isso tenha um efeito mais forte sobre a plateia do que o uso da violência exacerbada, agora se faz entender porque menos é mais.

“Explorar a cena significa descobrir no seu intimo uma série de ações físicas e verbais que o ator executara em uma circunstância específica, em lugar específico e em uma época especifica. Esse trabalho envolve outros problemas, mas começa, logicamente com o ator achando algumas respostas específicas e não generalizadas a algumas perguntas fundamentais a respeito do personagem que ele irá criar e desenvolver. Ele faz as perguntas e as respostas na primeira pessoa, porque, o ator deve se envolver com os problemas de seu personagem de forma artística. O que estou fazendo? Por que estou fazendo? Quem sou? Onde estou? Quando é? Em algumas peças as respostas parciais são frequentemente dadas pelo dramaturgo, ás vezes em consideráveis detalhes. Respostas são também, sempre encontradas claramente ou sugeridas no dialogo: no que o personagem diz a seu respeito, o que os outros dizem a seu respeito. Geralmente, as respostas dadas pelo dramaturgo devem ser suplementadas com detalhes adicionais pela imaginação e vivencia do ator. Estas respostas suplementares tem que ser uma extensão lógica da circunstancia dada pelo autor.” Declara o ator e diretor, Silvestre Guedes.

Um ator jamais deve se vender a plateia. Como assim? Existe um fluxo de energia que nasceu durante os ensaios, porém quando esta energia, fruto do trabalho é mostrada a uma plateia, o ator tem a tendência de se exaltar e acabar com este fluxo, até então estabelecido e isso prejudicará todo espetáculo, uma vez que isso afeta o ritmo da peça, tornando-a monótona, cansativa, um resultado claramente provocado pelo puro estrelismo, neste impasse Stanislavski ressalta a seguinte frase: “O ator deve decidir se quer viver a arte intensamente, ou apenas demostrar beleza e fazer carreira.” Nem sempre a queda ou alteração do fluxo de energia numa peça é uma questão de estrelismo, ela também pode ser ocasionada pelo estado de mecanização do ator, da falta de entrosamento do elenco, da falta de direção e polimento da peça. É importante destacar que é melhor frisar durante o processo de criação em deixar um gostinho de quero mais no público, do que provocar a sensação de barriga cheia e indigestão. A proposta da peça muitas vezes é boa e o elenco pode mostrar ter muito potencial, contudo se a peça ou esquete tivesse terminado no tempo exato, no estalar de dedos, na pulsação, invés de se alongar, o resultado seria completamente diferente e satisfatório. Isso acontece com o ator quando ele acredita ter ganhado a plateia, então ele se vende, por um riso fácil, por exemplo, e começa a jogar cacos, coisas que não estavam previstas, mesmo um caco quando é jogado num espetáculo tem que ser espontâneo e necessário para o momento, uma vez que ele serve para tapar algum buraco que surgiu durante a cena. Um caco que vá contra a estética ou proposta da peça, pode ser uma cagada difícil de limpar depois. A direção torna-se também muito essencial para este fim, afinal é o diretor que enxuga as cenas, é ele que determina o tempo da peça, mesmo com um texto enorme nas mãos, ele precisa ter a mente aberta para a realidade, nem sempre o que está escrito funciona na prática. Um texto com previsão de duas horas de duração pode ter mais força se reduzido para o tempo de uma hora, claro que isso depende muito da flexibilidade do texto, uma vez que existem milhares de obras que são intocáveis, seria um sacrilégio picotá-las, tal é a complexidade da genialidade do dramaturgo que não há a menor possibilidade de alterar nada no texto, nem uma vírgula.

O polonês Jerzy Grotowski, um dos grandes mestres heréticos e reformadores do teatro do séc XX, teve como principal influenciador de seus trabalhos, Stanislavski e possivelmente ele, Grotowski, conseguiu superar o mestre russo quando ele se propôs a aperfeiçoar e desenvolver as intuições de Stanislavski, ao mesmo tempo em que as aceitava e as negava fervorosamente, então é interessante mencionar a formula que soa como desafio de Grotowski: “Caminho negativo. Ela tem um sentido estritamente técnico, prático. Trata-se de não procurar no trabalho do ator, gestos aprendidos, “meios de expressão” belos e prontos, modos de atuar inventados de cabeça. Mas, por meio de um training especifico, individualizado, remover os bloqueios psicofísicos do ator, eliminar os estereótipos dos comportamentos e da reação, chegar ao ponto que o ator agindo toca o desconhecido. E se for preciso: sobre esta base, construir a partitura (...) Diante dos espectadores-testemunhas, o ator deve tender para a plena sinceridade – sinceridade consigo mesmo, como especifica Grotowski – não se esconder, mostrar o si mesmo íntimo em um singular ato de provocação, que deve evitar as armadilhas do masoquismo e do narcisismo. Aquilo que o ator faz diante do público não é representar, fingir artisticamente, mas um ato real: de coragem, de humildade, de oferta. Com o tempo tudo isso é compreendido na fórmula-chave do período teatral “ato total”. Estamos aqui no âmbito do ofício, mas evidentemente além do ofício.” Depoimento de Ludwik Flaszen no livro O Teatro Laboratório de Jerzy Grotowski.

O conhecimento do sistema stanislavskiano em todos os seus por menores pode determinar se o espetáculo dramático depois de exposto a um público e nitidamente enraizado com uma quarta parede convencerá como um drama, caso contrário está fadado a cair na comédia e gozo da plateia, sempre verdadeira, enfatizando que Stanislavski é apenas um caminho a ser seguido, existem muitos outros a serem explorados, como Antonin Artaud, Samuel Beckett, Bertolt Brecht, o próprio Jerzy Grotowski, Dario Fo, Augusto Boal, Eugênio Barba e tantos outros grandes nomes.

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Ed Paixão é ator, professor de teatro, palhaço e conselheiro municipal de cultural da área temática de teatro.

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