Além do mérito musical, reunido em um super elogiado CD, alguns outros méritos fazem da banda sul baiana, “OQuadro” histórica e pioneira:
Foi a primeira banda de Hip Hop a se apresentar no Teatro Castro Alves em Salvador (2008), por meio do projeto Segundas Musicais da FUNCEB – Fundação Cultural do Estado da Bahia; foi indicada ao prêmio Hutuz (maior festival de Hip Hop da América Latina), concorrendo na categoria melhor banda norte/nordeste 2008; foi a banda de abertura da VI Bienal de cultura da UNE, em Salvador (Janeiro de 2009), juntamente com o Cordel do Fogo Encantado; foi selecionada para participar dos Trios Independentes da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (2009), no projeto Bahia S.S – Sound System, primeiro trio pautado nesse conceito de origem jamaicana a se apresentar no carnaval de Salvador e também foi selecionada no edital de circulação de música da FUNCEB – Fundação Cultural do Estado da Bahia, com o projeto “O Quadro em 3”, por meio do qual produziram o documentário: “Na fé, e no flow”, sobre o Hip Hop e a diversidade da cultura na Bahia.
Além disso, a banda “OQuadro” foi citada em um dos mais importantes cadernos culturais do Brasil, a revista Bravo! na matéria “Os Novíssimos Baianos” (2010) que fala do cenário atual da música baiana. Também encabeçou o Festival Bahia Sound System (2011), Conexão vivo, convidando Lucas Santtana, Bnegão, Lurdez da Luz e Buguinha Dub no mesmo palco. Não podemos deixar de citar que foi convidada a abrir o projeto “Conexão Vivo na Sala do Coro” (2012) na concha acústica do TCA, juntamente com Lucas Santtana e Moraes Moreira.
Dia 4 de julho, OQuadro lança seu primeiro álbum, homônimo, no Teatro Municipal de Ilhéus. No disco, 11 faixas resumem a trajetória musical de quase quinze anos, com o melhor dos seus arranjos e letras.
Nesta entrevista, Jef Rodriguez, Mc vocalista d’OQuadro, também professor de filosofia e militante da cultura HipHop, fala sobre a trajetória da banda e o lançamento do disco.
1. Há cerca de quinze anos se iniciava a trajetória d’OQuadro. Como era o contexto, o momento musical, que os integrantes viviam naquela época? O que mudou daqueles tempos para cá?
Jef. Em meados dos anos 90 estávamos no auge de nossa adolescência. Lembro que a casa de Victor (baterista) era um lugar que tinha essa característica de receber os amigos e compartilhar músicas, revistas, filmes, livros e vídeos (na época, VHS) de alguma banda que gostávamos. Ficávamos quase todas as tardes envolvidos nesse universo. Isso, num tempo em que não existia (pelo menos pra nós) MP3, internet, essas coisas. Com a idade, vieram as cobranças do tempo. As obrigações com faculdade, trabalho, família, foram ganhando espaço em nossas vidas. Víamos nossos amigos com seus diplomas, passando em concursos, montando seus escritórios em diversas áreas. Ficávamos felizes por eles, mas não era aquilo que queríamos. Não tínhamos dinheiro e muitas vezes, nem mesmo instrumentos, mas queríamos fazer música, viver disso. Então, além dos discos, passamos a buscar informações sobre tudo que envolvia a parte profissional desse ramo. Desde a engenharia de som até o agenciamento de bandas, tudo nos interessava. E, dessa forma, movidos pela mesma vontade, depois de anos e anos de resistência, conseguimos agora gravar nosso primeiro disco.
2. E a idéia do nome “OQuadro”, veio de onde?
Jef. Conhecemos-nos na escola. Já tínhamos vontade de montar um grupo de rap, mas foi numa Mostra de Valores Artísticos da Escola Pública que tivemos nossa primeira oportunidade de nos apresentar. Então escolhemos o nome Quadro Negro, a princípio porque a música que compomos fazia uma crítica a educação brasileira e, o “quadro negro”, ao mesmo tempo em que representava uma via de comunicação entre o professor e o aluno, também fazia menção ao caos em que o nosso sistema educacional se encontrava (e se encontra até hoje). Com o passar dos anos, percebíamos que o uso da palavra “negro” para quesitos negativos representava um tipo de racismo lingüístico, o que vai de encontro a nossos fundamentos. Então, reduzimos o nome e percebemos que OQUADRO é mais amplo em significados, o que nos agrada muito.
3. Vocês fazem parte da chamada New School (Nova Escola), uma tendência do Hip Hop. Então, como “OQuadro” define seu som?
Jef. Fazemos rap, e quando analisamos a história da cultura hiphop, percebemos uma grande variação de estilos, onde todos os ritmos possíveis podem ser incorporados na construção dessa música. Geralmente essa inserção acontece através de samplers e programações eletrônicas. Como não tínhamos acessos a esses equipamentos, fizemos uso dos instrumentos que faziam parte de nossa realidade como: bateria, baixo, guitarra, percussão, tornando o nosso rap mais orgânico, o que não é tão comum. E assim como nós, grupos como Arrested Development, The Roots, Câmbio Negro, entre outros, também se expressavam dessa forma. Mas como em toda obra, o que caracteriza e diferencia são os detalhes, o jeito como os instrumentos são tocados e os assuntos são abordados. E nesse sentido, definir o estilo de um artista merece um tempo e uma dedicação que talvez não caiba numa única resposta.
4. Literatura e cinema são algumas das linguagens que vocês se utilizam para criar uma sonoridade peculiar à banda. A presença de três Mcs verbalizando o pensamento sobre diversos temas, trazendo à tona letras marcantes, é um dos fortes d’OQuadro. Diante dessa mescla de linguagens, como é o processo de composição das músicas?
Jef. Cada música tem uma história, não há um processo único. Muitas vezes as letras surgem de um diálogo, ou de algum acontecimento que nos chame a atenção. Levamos para o ensaio e apresentamos, e se todos gostam, logo surge uma música que se encaixa. Mas o inverso também acontece, as músicas também podem vir primeiro. Como disse, não há um padrão.
5. Como foi viabilizada a gravação do CD?
Jef. Gravamos com o patrocínio da Conexão Vivo. Depois de anos tentando frustradamente juntar dinheiro, descobrimos o Fazcultura, que é um programa de incentivo ao patrocínio cultural. Conhecíamos o Edson Ramos (Prumo), que sempre acreditou em nosso potencial, o mesmo apostou na idéia, mandou o projeto, e deu certo.
6. Como foi o processo de gravação do CD, a integração da banda nos arremates finais das músicas e a presença de Buguinha Dub na mixagem e produção musical?
Jef. Gravamos tudo em basicamente 5 dias. Normalmente bandas de grande porte passam meses, mas essa não era nossa realidade e o Buguinha, sabendo disso, aceitou encarar essa maratona conosco. Depois, esses arquivos gravados foram para a mixagem no estúdio Mundo Novo, em São Paulo, onde acompanhávamos via internet, a medida do possível, dando nosso parecer até o momento da masterização que foi no estúdio YB, também em São Paulo. Dessa vez sobre a direção de Gustavo Lenza, que já trabalhou com artistas como Céu, Curumim, Racionais Mc’s, entre outros.
7. O CD foi muito elogiado, inclusive, por Guilherme Arantes, que faz também uma participação especial. Segundo ele, “de minha parte, estou pra lá de contente vendo esse fenômeno germinar!” Como vocês se sentem, sabendo que o disco foi bem recebido entre artistas e gente que conhece de música?
Jef. Satisfação e felicidade de ver nosso trabalho reconhecido. Depois de anos de dedicação isso é muito gratificante, principalmente por vir de pessoas que conhecem do assunto. O Guilherme Arantes foi uma grande surpresa, nos conhecemos no estúdio e desde o princípio se mostrou muito sensível e aberto a outras linguagens, o que possibilitou um encontro musical que nunca imaginávamos. Nos sentimos premiados e agradecemos por tudo isso.
8. A capa do CD é assinada pelos conceituados artistas plásticos Izolag e Ananda Nahu. Como surgiu a idéia de conceber essa identidade visual?
Jef. O Izolag nos conhece desde pequeno. Morava em Ipiaú e pegava discos e revistas de rap com Freeza (membro d’OQUADRO, natural de Ipiaú). Sempre gostou de nossa música e nós sempre acompanhamos sua evolução enquanto artista. Quando comentamos que íamos gravar, ele se dispôs a fazer a capa. Confiamos a ele, por conhecer nossa história e ficamos satisfeitos com o resultado. Hoje, ele junto com sua companheira Ananda Nahú, formam a Firme&Forte Records e são uns dos melhores do mundo na categoria Stencil, o que nos deixa muito honrados.
9. O álbum será distribuído pelo selo Coaxo do Sapo. Como será a estratégia de distribuição?
Jef. Eles conhecem os estabelecimentos pelo Brasil que tem afinidade com o nosso tipo de música e por terem o mesmo público alvo. A estratégia é óbvia, chegar ao conhecimento do maior número de pessoas possível.
10. Há pouco mais de um mês, vocês se utilizaram de uma estratégia usada por grandes artistas atualmente, que é a disponibilização do álbum na íntegra, na internet. Quais os resultados esperados e alcançados com essa ação?
Jef. O artista que quer tocar no rádio hoje tem que pagar “jabá”. Nunca fizemos parte disso, então usamos as redes sociais como uma mídia gratuita, onde alcançamos um número grande de pessoas de vários lugares do mundo. Somado a isso, não se compra mais discos como antigamente, principalmente de artista que não se conhece. Quando disponibilizamos nossas músicas na internet, damos a possibilidade de as pessoas escutarem gratuitamente. Caso não gostem elas podem deletar. Caso gostem, farão questão de mostrar para os amigos, compartilhar nas redes sociais e adquirir o disco, mesmo tendo em MP3.
11. Sabe-se das dificuldades de fazer arte de forma independente. O que os motiva a continuar criando suas músicas e buscando cada vez mais espaço?
Jef. Simplesmente porque não conseguimos viver sem isso. Como falei em respostas anteriores, nos conhecemos adolescentes na escola. De lá pra cá muitas coisas aconteceram, bandas acabaram, outras surgiram e nós continuamos juntos. E isso nos parece um sinal de que existe um propósito para tudo isso. E isso parece ser maior que nosso orgulho, nossas diferenças, que nós.
12. O que vocês esperam do show de lançamento nessa quarta (04), no Teatro Municipal de Ilhéus?
Jef. Esperamos a casa cheia. Esse show será uma celebração, uma forma de retribuir o carinho de quem nos acompanha a anos, comparecendo em nossos eventos, acreditando em nossa música. Estaremos devolvendo em forma de CD e show cada gesto de incentivo que tivemos por todo esse tempo. E quem nunca viu terá uma bela oportunidade de conhecer e degustar cada detalhe. Esse show terá a direção de Romualdo Lisboa, projeções de Flávio Rebouças e Iluminação de Paulo Rozário.
13. E as expectativas d’OQuadro a partir de agora?
Jef. A idéia agora é expandir, fazer nossa música chegar a vários lugares através do disco e conseqüentemente das apresentações. Conseguir recursos suficientes para nos dedicarmos exclusivamente à produção artística, o que ainda não acontece. Contribuir com nossa arte de maneira positiva com a consciência, saúde e equilíbrio das pessoas.
Assista o vídeo-chamada do lançamento do CD d'OQuadro: http://www.youtube.com/watch?v=TZC_Sw0v9Fg
Tacila Mendes, 26 anos, é comunicóloga e especialista em Audiovisual pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Além de fotografar e dar aulas nesta área, se envereda pela produção cultural da região, escrevendo projetos para captação de recursos e trabalhando também como assessora de imprensa. Fez parte da equipe da 1ª e da 2ª MUSA – Mostra Universitária Salobrinho de Audiovisual; do projeto Afrofilisminogravura; do 1º Festival de Cinema Baiano - FECIBA; o Bahia Sound System e do Memórias do rio Cachoeira.
Gosta também de cantar e faz parte do projeto "Mulheres em Domínio Público", do qual é uma das quatro intérpretes. Foi eleita Conselheira Municipal de Cultura de Ilhéus no setor de Audiovisual (2011).
Como gosta de conhecer gente, seus estilos e formas de pensar, lugares e tudo que lhe parece diferente e interessante, propõe um papo "Entre Vistas" a fim de descortinar esses mundos...


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